Tradição: Procissão dos Penitentes do Paul

Tradição: Procissão dos Penitentes do Paul

A Procissão dos Penitentes no Paul é uma das mais singulares e tétricas manifestações de religiosidade popular na região da Beira Interior, encontrando paralelo apenas nas vizinhas aldeias de Lavacolhos e da Enxabarda.

A belíssima vila do Paul, banhada pela ribeira homónima e emoldurada pela Serra da Estrela é um local onde o sagrado tem forte cariz popular e de reminiscências pagãs. Exemplo disso é também a tradicional Festa a Santa Bebiana, sagração de culto dionísico e pagão em homenagem ao vinho e à jeropiga. No Paul, o sagrado e o profano cruzam-se em tradições que cimentam a identidade cultural da vila.

A Procissão dos Penitentes é, no Paul, uma tradição, que se realiza anualmente, numa das sexta-feiras da Quaresma. Os Penitentes no cortejo na vila do Paúl organizam-se em oito filas, segundo descrições de Maria Antonieta Garcia, que reiteram as de Jaime Lopes Dias. Na primeira, vêm três Penitentes, lado a lado, o do meio leva um crucifixo e carregam uma lanterna cada um dos que o ladeia. Segue-se outra fila onde os das pontas levam, cada um, uma escada, enquanto ao centro vai uma enorme cruz com um lençol colocado por cima. Na fila seguinte seguem-se mais três, à esquerda vai um Penitente que carrega um prato com três cravos, o do centro leva um martelo e o da direita leva uma coroa de espinhos. Atrás destes três, vem um par de Penitentes cada um carregando uma cana simulando uma lança. Na cauda do cortejo, vêm quatro Penitentes, uns atrás dos outros, o primeiro leva na sua mão direita um látego e sobre o seu ombro esquerdo e costas uma pele de cabra ou ovelha (também conhecida como samarra), o segundo traz uma relha presa à perna direita que arrasta no chão, “é o pecador que arrasta os pecados”, o terceiro tem como função “apanhar os passos”, com este propósito vai a dançar, saltar ou penar, o quarto segue-o com uma vassoura com a qual “apanha os passos” e “varre os pecados”.

Já os regras que vão a acompanhar a procissão têm como propósito o canto, como já mencionado acima, e também de mandar parar e avançar a procissão. Sobre estes é dito o seguinte: Os que vão à regra não vão vestidos de branco nem levam qualquer insígnia, vão só para dirigir. Estes, de certa em certa distância, fazem sinal de parar nas estações, o que é prontamente acatado pelos Penitentes, e cantam em tom funéreo com música própria e originalíssima:

– Oh meu bom Jesus! Pelos tormentos que passasteis na cruz, tende misericórdia das almas!

E em voz grave, e ao mesmo tempo, respondem os quinze Penitentes:

– E de nós.

A descrição ainda anota que após ser proferido este cântico, um dos Penitentes, o

que carrega a samarra que lhe cobre o ombro esquerdo e as costas, bate três vezes nas suas costas com um látego que leva na mão direita. Assim a cada estação ou passo da procissão para além de serem entoados os martírios um dos Penitentes também se flagela.

De acordo com interessante texto publicado no blogue Vila de Paul “Na Idade Média, as penitências e romarias religiosas começaram a ganhar peso, sob a influência da Igreja Católica, que incentivava os fiéis para tais práticas, no intuito de purificar a alma dos pecados. Aproveitando a oportunidade de purificação, os homens auto-flagelar-se-iam na Procissão dos Penitentes, na ânsia de reproduzir e sentir o sofrimento de Cristo.

No entanto, a auto-flagelação é um acto pagão, tendo sido sempre condenada pela Igreja Católica e, por isso, a Procissão dos Penitentes terá provavelmente origem pagã. A ausência de pároco na formação da procissão também poderá demonstrar esta hipótese. Deste modo, há quem acredite que a cerimónia poderia servir de prece dirigida a Deus nos tempos de Peste Negra, julgando-se ser este um castigo dos Céus. Há também quem fale em leprosos e tuberculosos refugiados nos montes da região, que só desciam em procissão à Vila, envoltos em lençóis brancos, quando a população já descansava, procurando o perdão de Deus pelos pecados que teriam cometido, dando origem à doença. A “relha” (ferro do arado) que um dos homens arrasta pelas pedras da calçada serviria para avisar a chegada dos Penitentes.”

De qualquer modo, numa mistura de fé e arrebatamento, de transcendência e misticismo, a Procissão dos Penitentes é uma cerimónia trágica e impressionante, que chega, segundo alguns, a “arrepiar a espinha”. Assistir a esta procissão em terras da Quadragésima será sempre uma experiência religiosa e mística única.