Tradição: Os melhores bolos de Páscoa da Beira Interior

Tradição: Os melhores bolos de Páscoa da Beira Interior

A Páscoa é uma época marcante nas tradições gastronómicas beirãs. A criatividade para poder cumprir as penitência associadas à quaresma é combinada com a celebração familiar em torno dos bolos. Os bolos que as nossas avós faziam em comunidade, nos seus fornos de lenha, e que se tornaram rituais de união e celebração familiar e foram passando de geração em geração, de boca em boca.

Nos bolos de Páscoa da tradição beirã há uma identidade e um laço comunitário e familiar que nos faz querer regressar às coisas simples e aos lugares das nossas memórias felizes.

O Folar da Páscoa é o rei que sai do tabuleiro sempre acompanhado de seus fiéis discípulos que vão variando de terra para terra, de família para família, mas que têm essencialmente a mesma vocação, preparar o fim do jejum para a celebração da ressurreição de Cristo. Esquecidos, broas de mel, borrachões, bolo finto, bolos de azeite, bolo de azeite e erva doce, cavacas, pão de ló, carolos, biscoitinhos e fofinhos de mel e amêndoa, a parada de iguarias doces não tem fim e fica ao critério da imaginação e das tradições familiares de cada um.

Vamos então conhecer alguns destes autênticos símbolos da Páscoa beirã, que são os seus bolos.

Folar da Páscoa

Sendo a Páscoa a festa que comemora a Ressurreição de Jesus, está associada a práticas alimentares em que os ovos, as amêndoas, os cordeiros assim como os folares ocupam o primeiro lugar. Inicialmente chamado de folore, o bolo veio, com o tempo, a ficar conhecido como folar e tornou-se numa tradição que celebra a amizade e a reconciliação. Durante as festividades cristãs da Páscoa, os afilhados costumam levar, no Domingo de Ramos, um ramo de violetas à madrinha de baptismo e esta, no Domingo de Páscoa, oferece-lhe em retribuição um folar. Esta tradição de oferecer folares na Páscoa, estende-se também a familiares e a pessoas das quais se gosta. Por tradição, o folar é também servido aos convidados do chamado Compasso Pascal, tradição cristã portuguesa que consiste na vista casa a casa de um pequeno grupo de paroquianos, com ou sem o seu pároco, acompanhados de um crucifixo que representa a presença de Jesus vivo.

O bolo folar pode conter ovos, que é um dos símbolos associados à Páscoa, já que simbolizam a vida e a fertilidade, incluídos nesta época festiva. O folar mais corrente em Portugal é um bolo de massa seca, doce e ligada. É feito com farinha de trigo, ovos, leite, azeite, banha ou pingue (gordura), açúcar, fermento, sendo condimentado com canela e erva-doce. Resultando uma espécie de bolo fogaça, encimado, conforme o seu tamanho, por um ou vários ovos cozidos inteiros com casca, havendo em certos locais a tradição de os tingir com cores (simbolizando a vida e  nascimento), sendo estes incrustados e visíveis sob as tiras de massa que o recobrem. Por fim e antes de ir cozer ao forno, são pincelados com gema de ovo. Acrescente-se, contudo, que a tradição deste doce, o folar, qualquer que ele seja, assenta no ritual de dádiva, solidariedade e convívio, profundamente enraizados na sociedade portuguesa neste período do ano.

***

/// Broas de açucar ou esquecidos

São uma presença habitual no tabuleiro de Páscoa, especialmente mais a sul do distrito de Castelo Branco. São simples de fazer e os ingredientes são básicos.

12 ovos; ½ kg de açúcar; ½ kg de farinha.

Batem-se as gemas com o açúcar, mistura-se a farinha e as claras em castelo. Com uma colher de sopa vão-se deitando porções num tabuleiro e vai ao forno, não muito quente. 

***

///Bolo de Páscoa (Bolo de azeite e erva doce)

È um bolo de azeite encorpado e que é adocicado com erva doce, levando também um gostinho a aguardente. Bom para acompanhar com queijo e compotas, ou simplesmente sem nada, só uma fatia de sabor intenso.

12 ovos; ¼ azeite; 1 copo de aguardente (copo pequeno); 3kg de farinha; 1 colher sopa de fermento de padeiro; Erva-doce (sementinhas). 

Para fazer os Bolos Doces precisa de 3 dúzias de ovos, 1Kg açúcar, 1L azeite, 1L leite, água da canela em pau, 1 copo de aguardente, sumo de laranja, 1 colher de fermento Royal, fermento de pão e farinha.  

***

/// Bolos ou broas de leite

Também conhecidos como Farta-Brutos ou Cabeçudos, são bolos rechonchudos e de massa consistente, desenhados em forma de pequeno vulcão de sabor, que no topo, em erupção tem um montinho de açucar. Há que comece por aí ou deixe o montinho de açucar no fim.

(Para fazer cerca de 6 dúzias de bolos) 1 Dúzia de ovos; 1Kg açúcar; 7,5dl azeite; 1 copo de aguardente; 1 colher sopa de soda; 1 colher de sopa bem cheia de fermento em pó; 1 pitada de canela em pó; 1l leite; Sumo de 2 laranjas; Farinha suficiente para se trabalhar bem a massa.

Mistura-se tudo e acrescenta-se a farinha aos poucos. Coloca-se em latas (tabuleiros) formando-se os bolos com uma colher de sopa. Antes de ir ao forno pincelam-se com ovo batido e põe-se um montinho de açúcar em cima. Vai ao forno bem quente.  

***

/// Bolos de festa ou bolos fintos

O bolo da festa é um bolo finto, feito com farinha de trigo, azeite, ovos, açúcar e fermento  e que antigamente se produzia apenas na Páscoa.

O nome atribuído ao bolo está relacionada com o facto de a massa ter de ficar a levedar (ou seja, fintar) durante várias horas, de preferência de um dia para o outro. Basicamente a mesma técnica e composição de um folar, mas sem os ovos em cima.

1 Pão de massa (+-1kg); 18 Ovos; 1 Kg de açúcar; Farinha q.b. para tender ; 1 Copo de aguardente; 0,75L Azeite; 100g (+-) fermento de padeiro, sal, canela e erva doce (2 colher de chá de cada), sumo de laranja. 

Primeiro desfaz-se o fermento com o sal e o pão de massa num pouco de água morna. Para um recipiente que possa ser colocado em banho-maria partem-se os ovos que se batem com a mão e adiciona-se o açúcar, o azeite, a erva doce, a canela, a aguardente e o sumo de laranja. (Esta operação deve ser efetuada em banho-maria para que o preparado fique bem quentinho). Num alguidar, onde já se encontra o pão de massa previamente desfeito, deita-se a mistura dos ovos e vai-se amassando, adicionando a farinha, de forma a atingir uma textura que permita tender (despegar do recipiente). Finta durante 4 ou 5 horas, sendo conveniente não deixar arrefecer. Depois de finta a massa, tende-se em bolas com cerca de 500g cada e colocam-se num tabuleiro onde devem fintar novamente mais cerca de 2h. Depois de barrados com ovo batido, polvilham-se com açúcar e cozem em forno bem quente. (diretamente no chão do forno de lenha ou em tabuleiros).

***

/// Cavacas

A simplicidade não significa necessariamete incipiência. Prova disso são as tradicionais cavacas que levam ingredientes simples e pobres para fazer uma iguaria muito apreciada na região e que teve origem, como muitos outros, origem nos inúmeros conventos.As Cavacas do Fundão, com a característica cobertura de açúcar, fazem lembrar as serras da Estrela e a da Gardunha, após um nevão.

12 ovos; ¼ l de azeite; 200g farinha; 1 copo de aguardente.

Batem-se todos os ingredientes insistentemente durante uma hora. Colocam-se colheradas de massa num tabuleiro untado com azeite, e coze no forno a temperatura média. Após a cozedura, deixar arrefecer e decorar com massa de suspiro (claras em castelo batidas com açúcar) aguardando que seque, naturalmente. 

***

/// Broas de mel

Tradicionalmente, feitas em forno de lenha, faziam parte das iguarias das festas das aldeias e há inúmeras formas de as preparar. Distinguem-se pela massa fofa e consistente. É um bolo seco capaz de durar algum tempo.

12 Ovos; ½ kg de açúcar; 1,250 kg farinha; 5 colheres de mel; ½ l de azeite; 1 colher de chá de canela meio copo de aguardente; 1 colher de café de fermento em pó.

Batem-se os ovos inteiros com o açúcar, a canela, o mel e o azeite, mas este último faseadamente e em fio. Por último a farinha peneirada com o fermento. Com uma colher de sopa vão-se deitando porções num tabuleiro de ir ao forno. Barram-se com ovo batido.

***

Além dos bolos secos há muitas outras iguarias doces para celebrar a Páscoa. Desde as tigeladas ao arroz doce, dos pudins ao leite creme ou às papas de carolo, o que não faltam são receitas tradicionais beirãs que vão passando de mesa em mesa, de geração em geração, mostrando que a gastronomia é não só uma marca forte da identidade cultural da região, mas também um laço filial.