Sacaparte, um lugar muito espiritual

Sacaparte, um lugar muito espiritual

Uma peregrinação pelos lugares do sagrado em terras da Quadragésima não pode ignorar Sacaparte, em Alfaiates (concelho do Sabugal) Segundo a investigadora Rosário Carvalho: ” A vocação religiosa deste local tem, segundo diversas lendas alusivas à invocação de Sacaparte, origens muito remotas. Na sua génese estão, invariavelmente, as disputas entre portugueses e castelhanos”.  A igreja existia, com certeza, em 1332, tendo sido edificada, muito possivelmente, sobre as ruínas de uma outra, de época anterior.

A espiritualidade deste lugar deve no entanto ser bastante bem mais remota, já que bem próximo das ruínas do Convento de Sacaparte se encontram os restos de um dólmen. “Deste primitivo monumento sobram apenas três pedras, que constituem os restos de uma construção mais complexa, da qual só visualizamos uma parte reduzida, pois o monumento terá sido destruído ao longo do tempo, pelos trabalhos agrícolas e florestais e pela reutilização das pedras em muros das propriedades envolventes. A forma de colocação das pedras fincadas no solo é cuidada e a orientação E-SE do eixo principal da construção confirmam que se trata de um monumento funerário pré-histórico.” Pode ler-se no site do Município do Sabugal.

Mas o dólmen não se reduzia apenas ao grande caixão de pedra. Estas lajes estavam, na origem, cobertas por um amontoado de pedra miúda e de terra que revestiam por completo a estrutura pétrea, formando uma suave elevação no terreno, de forma semiesférica, que popularmente se designa por mamoa. As antas que hoje visualizamos estão, por isso mesmo, já bastante descaracterizadas, pois apenas lhes sobra a câmara interior. No dólmen de Sacaparte ainda se notam algumas pequenas pedras em torno das lajes fincadas, testemunhando a sua primitiva cobertura.
Nestas estruturas mortuárias eram colocados os restos mortais dos indivíduos das comunidades neolíticas e calcolíticas que habitaram a região durante o IV e III milénio a.C. Junto com os despojos funerários eram depositadas algumas peças de cerâmica e artefactos de pedra polida ou lascada. Muitas vezes os próprios esteios das antas apresentavam pinturas ou gravuras de arte esquemática, de significado desconhecido, que contribuem para a datação do monumento, o que não parece ocorrer neste caso.
O dólmen de Sacaparte é o único testemunho megalítico preservado no concelho do Sabugal, apesar de bastante destruído. No entanto, sabemos que a região do vale superior do rio Côa foi rica em termos de megalitismo, porque terão existido, pelo menos, mais nove antas na actual área municipal, que foram entretanto destruídas ao longo dos tempos: cinco em Ruivós, duas em Aldeia da Ribeira, uma no Cardeal (Rendo) e outra na Bendada.

O igreja e convento de Sacaparte

A primitiva Igreja de Sacaparte conheceu um novo impulso no reinado de D. João V, quando, em 1726, este monarca doou a ermida aos Padres da Congregação de S. Camilo de Lelis, também conhecidos por Congregados de Tomina, onde nasceu a primeira casa da congregação. Já existiam as hospedarias e o hospital, pelo que os religiosos apenas edificaram o convento e reformaram a igreja. Em 1752 abria o seminário. A romaria a Nossa Senhora de Sacaparte era muito conhecida e da devoção das populações limítrofes e de outras zonas mais afastadas.
As ruínas do antigo convento deixam adivinhar um espaço de planta rectangular, com ritmo de vãos simétrico. A albergaria apresenta planimetria longitudinal, com fachada principal seccionada por pilastras, destacando-se, no interior, a abóbada de arestas de tijolo. O cruzeiro, com capitel rematado por querubins, termina em cruz com a representação de Cristo sobre o crânio de Adão e a inscrição INRI ( Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum cuja tradução é «Jesus Nazareno Rei dos Judeus».) O recinto é delimitado, a Sul, pelos alpendres da feira.

O Mosteiro de Sacaparte fica a cerca de 2, 3 quilómetros de Alfaiates, embora totalmente em ruínas, apresenta ainda as fachadas em muito bom estado de conservação. No espaço envolvente tem a igreja, o cruzeiro, fontanários e alpendres para realização de feiras. Local isolado, embora aprazível para uma caminhada à descoberta do Dólmen que fica ali nas imediações, ou simplesmente para um pic-nic em familia. Tem churrasqueira com lavatório, água potável, mesas, e muito espaço ao ar livre ou mesmo  coberto em caso de chuva.