A serpente na haste, símbolo da cura e da medicina

A serpente na haste, símbolo da cura e da medicina

Leitura do Livro dos Números (Nm 21,4-9)

“Naqueles dias, os filhos de Israel partiram do monte Hor, pelo caminho que leva ao mar Vermelho, para contornarem o país de Edom. Durante a viagem, o povo começou a impacientar-se, e se pôs a falar contra Deus e contra Moisés, dizendo: “Por que nos fizestes sair do Egito para morrermos no deserto? Não há pão, falta água, e já estamos com nojo desse alimento miserável”.

Então o Senhor mandou contra o povo serpentes venenosas, que os mordiam; e morreu muita gente em Israel. O povo foi ter com Moisés e disse: “Pecamos, falando contra o Senhor e contra ti. Roga ao Senhor que afaste de nós as serpentes”. Moisés intercedeu pelo povo, e o Senhor respondeu: “Faze uma serpente abrasadora e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela viverá”. Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e colocou-a como sinal sobre uma haste. Quando alguém era mordido por uma serpente, e olhava para a serpente de bronze, ficava curado..

: O sucesso desta serpente foi tanto que ela acabou por receber um nome próprio (Neustã), tornando-se objeto de culto idólatra por alguns hebreus em Jerusalém. O livro de Sabedoria afirmava que a serpente na haste era um “símbolo da salvação”, um “emblema de saúde” que próprio Deus concede aquele que o busca com fé: “[…] com efeito, quem se voltava para ele ficava curado, não em virtude do que via, mas graças a Ti, Salvador de todos” (Sabedoria, 16, 7).

Este simbolismo da “serpente que cura” retornaria, de forma definitiva, no Evangelho de João: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que crer tenha nele a vida eterna” (João 3, 14-15).. Mas o arquétipo do poder curador da serpente elevada na haste deve ser encontrado na Antiguidade. Na Grécia antiga a serpente era associada a Asclépio, o deus da cura. Segundo a mitologia grega ele era filho do deus do Sol e da Sabedoria, Apolo, e da ninfa Corônis. O seu nascimento foi doloroso. Ele nasceu do meio do fogo, do ventre da sua mãe morta. Ele foi depois entregue aos cuidados do mais sábios dos centauros, Quíron, que lhe ensinou os segredos da medicina, da cura e da cirurgia. Asclépio dedicou-se com tanto afinco à sua vocação de médico que chegou a ressuscitar mortos.

O culto de Asclépio era envolto em segredos e o monopólio da medicina estava em poder dos sacerdotes sendo transmitidos apenas aos iniciados e seus filhos. Um dos seus devotos mais famoso foi Hipócrates, o Pai da Medicina.Na iconografia grega Asclépio era representado como um velho sábio e bondoso, que caminhava com um bordão com uma serpente enroscada. Este é o símbolo mundial da medicina.

Pintura: “Moisés e a serpente”, Anthony van Dyck