A extraordinária história da Catedral da Guarda

A extraordinária história da Catedral da Guarda

Uma peregrinação à Beira Interior por ocasião da Quadragésima é também uma oportunidade de ficar a conhecer algum do notável património da região. Os lugares de culto onde ocorrem algumas das manifestações mais pungentes e antigas da quaresma, as igrejas, capelas, ermidas, a arte sacra e a arte profana, as cidades, vilas e aldeias, os lugares sagrados em que cada pedra de granito carrega uma história ancestral. Tudo isso são graças dadas ao peregrino que visite estas terras onde o sagrado é traço de forte identidade cultural.

Uma peregrinação pelo património religioso da religião não pode passar sem visita à monumental Sé Catedral da Guarda, edifício classificado como património nacional. A história deste vetusto edifício começa em 1199 quando a pedido do Rei D. Sancho I ao Papa Inocêncio III, foi transferida a diocese da Egitânia para a nova cidade da Guarda. A construção da primitiva catedral românica iniciou-se de imediato, mas hoje nada resta, apesar de alguns vestígios de “um singelo edifício” terem sido descobertos em meados do séc. XX. Um segundo edifício foi mandado erguer por D. Sancho II, diante da Torre dos Ferreiros.

A obra foi apenas concluída em meados do Séc. XIV, mas acabaria destruída durante a reforma fernandina das muralhas, por se situar fora de portas. Segundo a Direção-Geral do Património, pouco se sabe sobre esta segunda Sé, a não ser que seria um templo de três naves.A definitiva Sé da Guarda, o atual e imponente edifício, começou a ser construida no final do século XIV: “O último monarca da primeira dinastia não consumou a promessa de iniciar as obras do novo templo, facto que apenas aconteceu já no reinado de D. João I, por iniciativa do bispo D. Vasco de Lamego, partidário da causa de Avis nos anos da crise dinástica”, pode ler-se no site da Direção-Geral do Património.

As obras não foram de Santa Ingrácia, mas foram igualmente lentas, tendo a sua construção durado século e meio, período durante o qual recebe diversas influências arquitectónicas, estéticas e artísticas, a começar pelo Mosteiro da Batalha, e um segundo momento já de influência manuelina. De qualquer forma, a Sé Catedral da Guarda é um dos grandes monumentos tardo-góticos do país. “Durante a segunda metade do século XV as obras terão decorrido com enorme lentidão e só no episcopado de D. Pedro Gavião (1504-1517) se verificou o impulso que conduziu à conclusão do edifício. Data deste período as naves, o abobadamento de todo o edifício e a realização do portal principal, este último com claras afinidades com o portal da capela da Universidade de Coimbra, realizado por Marcos Pires.

A feição fortificada de todo o conjunto é uma das características essenciais desta catedral, de que se destaca a maciça composição tripartida da fachada principal, com duas torres octogonais e de perfil em quilha na parte inferior.”As obras foram concluídas no reinado de D. João III, período do qual datam a capela dos Pina (mandada edificar por João de Pina, tesoureiro da catedral) e a segunda, o notável retábulo-mor, em pedra de ança.

Acompanhando a forma semi-circular, desenvolve-se em quatro registos hierárquicos onde se representam, no primeiro os Apóstolos, no segundo Moisés, Ezequiel, Elias e Daniel, a Anunciação e a Natividade, no terceiro a Virgem da Assunção, e por último, cenas da Paixão de Cristo – é uma obra de arte renascentista produzida na oficina de João de Ruão, e composta por mais de cem figuras esculpidas. Foi encomendado pelo bispo D. Cristovão de Castro, senhor de Monsanto e alcaide-mor da Covilhã.A sobriedade e austeridade do edifício, conferem-lhe um aspeto de igreja-fortaleza, próprio de uma época em que as grandes catedrais portuguesas representavam uma afirmação de nacionalidade.

A planta é de tipologia medieval, de cruz latina com três naves e cabeceira de três capelas. No final do século XIX, a Catedral foi restaurada naquele que foi um dos mais relevantes projetos revivalistas da época conduzido pelo arquiteto Rosendo Carvalheira.Por entre os pináculos do edifício, as gárgulas são uma das atrações pitorescas da Catedral. As gárgulas têm a função de canalizar e escoar as águas da chuva, mas uma delas merece particular destaque. Chamada gárgula de rabo ao léu, vira as nádegas para Espanha, numa divertida provocação ao inimigo castelhano. A Sé Catedral da Guarda continua a ser o grande centro espiritual da cidade e da região e é ali, ou no largo em frente, que decorrem as cerimónias religiosas mais importantes, incluindo as espetaculares recriações da Paixão de Cristo, que são compostas por centenas de atores e figurantes, oriundos das paróquias da cidade e das aldeias vizinhas.

A cidade da Guarda é candidata a Capital Europeia da Cultura em 2027

Sé Catedral da Guarda

:Morada: Praça Luís de Camões 6300-725 Guarda

Telefone: +351 271 212 993

Coordenadas GPS: N 40° 32′ 17.559″ , W 7° 16′ 11.1858″