Procissão dos Penitentes – Lavacolhos e Enxabarda

Procissão dos Penitentes – Lavacolhos e Enxabarda

Uma procissão de tradição secular. As luzes desligam-se, os participantes vestem um lençol branco, descalços, de rosto encoberto, saem sob o olhar atento dos ‘guardas’ munidos com um varapau para manter a ordem e o silêncio dos espectadores. A procissão dramatiza, de forma única e impressionante, o percurso de Cristo até ao Calvário acompanhado do seu povo sofredor.

“Facto estranho, impressionante, o mais chocante de todos os do culto cristão pelo que tem de sacrifício e inenarrável devoção, com dezenas de mortais que voluntariamente se submetem a sofrimentos e martírios de extraordinária dureza, é esta procissão que, durante a Quaresma, tem lugar na ridente Cova da Beira”.

J. Lopes Dias

“Ritual ‘estranho’, ‘impressionante’, que, em tempos mais recuados, se efetuava noutros locais da Beira e do País – em Castelo Branco e Lisboa, por exemplo -; teria sido instituído para que Deus suspendesse uma peste, ou pelo Papa Gelásio I para substituir a festa das Lupercais ou purificações, que os romanos celebravam. Pedido e agradecimento de uma dádiva, ou cristianização de festa pagã? (…) Após as doze badaladas da meia noite, sai da Igreja, ou do Salão Paroquial, um grupo de Penitentes. Envolvidos em lençóis brancos – a cor do Além – descalços, – mesmo em noites muito frias – com uma coroa de ramos verdes na cabeça, andarilham pelos caminhos da aldeia, repetindo um ritual diferentemente vivido e interpretado, ao longo dos tempos. Realiza-se à noite, as luzes todas apagadas (as das ruas e as das casas): apenas e ouves as vozes dos participantes e os ruídos decorrentes da cerimónia. (…) No silêncio das aldeias, luzes apagadas, ouve-se o arrastar da relha, o tinir dos cravos no prato que um participante manipula, as chicotadas, os cães que uivam, estranhando tais sons por dentro da noite. De onde em onde param para uma ladainha. (…) Uma via sacra, sem dúvida, mas da qual a Igreja se alheia. São os homens e mulheres da aldeia que, por vontade própria, reiteramos, organizam e conduzem as cerimónias. Enfeitiçados, abandonamo-nos ao mistério das imagens, dos sons, dos odores da Primavera (…) Nestas aldeias vivia-se, ainda se vive, da agricultura. O trabalho do lavrador é um rito. A terra-mãe nem sempre é generosa. É necessário escolher períodos benignos para favorecer sementeiras e colheitas. O semeador aprendeu que o seu gesto não é suficiente para obter as dádivas que garantam a sobrevivência, o bem-estar. (…) E o despertar da Natureza, o desabrochar das plantas, na Primavera, é um momento em que se joga o futuro do ano agrícola e que, por isso, gerou uma série de rituais. (…) Torna-se necessário, neste tempo, atuar de forma mágica sobre a Natureza, estabelecendo boas relações, entre homens e poderes sobrenaturais que asseguram a renovação, a ressurreição do verde e da vida. (…) Assim, a relha do arado que durante a procissão se arrasta, sulca a terra, a lavra para que crie sem se exaurir, não remeterá para o despertar do grão, das sementes ou/e para uma crença longínqua que assimilava o lavrar ao ato gerador, a mulher à terra arada, o falo ao arado?”

Maria Antonieta Garcia